O cabeleireiro e o mecânico são duas das escolhas mais importantes a fazer na vida porque mexem com dois dos teus bens mais preciosos, o cabelo e o carro. Recordo-me quando era pequeno que ao cabeleireiro só iam as mulheres; os homens iam ao barbeiro. O meu primeiro barbeiro era o Sr. Manuel, comunista de gema que criava canários e que tinha a barbearia na cave por debaixo do tasco do Zé Manuel da Vacaria. A minha mãe e tua avó Gusta mandava-me lá ir sozinho e pedir o corte “curto mas não careca” (na altura moicano, à CR7 e essas modernices de escolha não existiam). Recordo-me do Sr. Manuel a fazer espuma da barba para os homens e de me meter sempre umas gotas de Lavanda da Ach Brito depois de cortar o cabelo, o que me fazia sentir sempre o miúdo mais homem lá da rua. Seguiu-se o cabeleireiro António, colega de escola do tio Pedro, que eu adorava lá ir para falar de vinho e de outras coisas mas que apesar do corte ser um complexo “tudo máquina 3, ou no Verão, tudo 1,5”, me deixava sempre com pontas soltas e a avó danada comigo por ter que me acertar o cabelo depois. Já a morar na terra da mamã, a mais memorável foi a “Sargento 35”, que apesar de me cortar o cabelo algumas 50X e de o corte ser o mesmo, me perguntou sempre qual era o corte e conseguiu em todas as vezes nunca sorrir e vincar que era um favor o que me estava a fazer (nem a gorjeta no final das 50X a fez render-se). Só o teu avô Tino conseguiu fazê-la sorrir (mas esse era um homem especial). Hoje o pai corta num daqueles sitios em que nunca tens um cabeleireiro fixo, pelo que tem de explicar sempre até à exaustão o complexo corte de 2,5 de lado e tesoura em cima (“e a patilha?”, “2,5 com 1 no inicio que tem muito volume de lado mas menos atrás?”, “e a sobrancelha. alinhada?”, …). É por isso que tal como nos carros, nada como o primeiro, o Sr. Manuel ou o meu Opel Corsa 1.0 de 4 mudanças, que não faziam perguntas e agradavam-me sempre.
(Em homenagem ao Sr. Manuel, deixo-te com a Lavanda da Ach Brito que ainda hoje podes comprar)
