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231. Lembra-te de crescer com os outros

Os outros são tu e tu és os outros. Não te preocupes que o pai não andou a beber, só água e da boa, de Monchique. A vida vai-te provar que a forma como és com os outros vai reflectir-se na forma como são contigo e com outros e assim por conseguinte. Por exemplo, neste momento andas a cantar o “Rape Me” dos Nirvana e o “I-E-A-I-A-I-O” dos System of a Down aos teus avós, professoras e colegas, que provavelmente pensam que andas a ver umas coisas estranhas na TV (só não sabem é que é a música que eu ouço contigo no carro ou para aliviar o stress). Desde a forma como falas, como interages fisicamente, motivas ou implicas, tudo isso vai produzir efeitos nos outros, de igual forma que os outros produzem em ti. Como em tudo na vida a solução é o ponto de equilíbrio, isto é, não ir para os extremos nos comportamentos e ações mas não deixar de ter a tua própria personalidade. Mais, e muito importante, ninguém merece que chores, sintas uma frustração enorme, ou te sintas uma merda. Se já souberes hoje como surge a vida humana, não terás dificuldade em acreditar que somos um pequeno milagre da natureza desde o primeiro dia (mesmo que muitos de nós enveredem por caminhos destrutivos). Causarás mais ou menos impacto no mundo mas pensa que tendo tu só uma vida (a tua mãe acredita na reencarnação e eu já estive mais longe de não acreditar; e olha que as teorias dizem que reencarnando é para pagar o que fizeste na vida anterior) deves passar mais tempo a fazer o bem aos outros que o mal, para fazer deste mundo algo melhor para quem vem a seguir. Tu não és eterno (apesar de muita gente pensar que sim, infelizmente).

(Sem comentários)

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230. Se algum amigo tiver um macaco no nariz, avisa-o

A amizade é como o álcool, às vezes (reitero, às vezes) é preciso aprofundar significativamente para se entender melhor aspetos incompreensíveis à primeira vista. Um verdadeiro amigo deve dar a sua verdadeira opinião sempre que a peçam, reitero, sempre que a peçam e não porque te vai na cabeça opinar sobre tudo. No entanto, há algumas circunstâncias em que deves alertar os teus amigos mesmo que não te estejam a pedir opinião, como sendo um macaco no nariz, uma braguilha aberta, estarem a beijar um homem pensando que é uma mulher ou vice-versa, a sentir-se bêbados quando passaram a noite a beber cocktails sem álcool, estarem a pensar curtir com a mulher de outro grande amigo, enfim, todas aquelas em que até pode ter piada durante alguns segundos mas depois as consequências podem ser graves.

(É de momentos como este é que vem o ditado “os amigos são para as ocasiões”)

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229. Responde sempre a solicitações

Responder sempre a quem te interpela é como dares um beijinho de boa-noite aos papás, podias não dar mas ias deixar-nos tristes. Pode ser um email, telefonema, whatsapp, messenger, tweet ou até mesmo um like no Tinder. Todos merecem uma resposta do teu lado, mais não seja porque alguém perdeu um milissegundo para “falar” contigo. Claro está que um contacto do pai ou da mãe, nem que seja da sala para o teu quarto, são o topo das prioridades de resposta. Eu e os teus tios éramos conhecidos por ser os miúdos mais educados lá da rua porque a avó e o avô ralhavam forte e feio connosco se não cumprimentássemos por esta ordem o Ti Luís, a Dona Conceição/ Sr. Alberto, Sr. Agostinho, Dona Deolinda/ Sr. Zé, a Dona Olívia dos Gatos, a Sra. Maria/ Sr. Zé Barbeiro, a Dona Idalina/ Sr. Manuel, Menina Assunção/ Sr. Zé e a Dona Antónia/ a Vizinha/ Sr. João.

(Já viste que a mamã responde sempre ao que o menino pergunta?)

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228. De vez em quando, vai “pentear macacos”

Ires “pentear macacos” ou “dar banho ao cão” é como ires “dar uma volta ao bilhar grande”. Não te preocupes que não tens que tirar nenhum curso de veterinária ou de bilhar para o fazeres. No que consiste então fazer qualquer uma dessas coisas estarás tu a questionar? Basicamente é “desamparar a loja” ou “pôr-te na alheta”. Bom, pode ser ainda “dar de frosques”. Ainda não percebeste? É simples, sabes quando o papá diz baixinho que está a fazer o “número 2” na casa de banho quando temos visitas e tu gritas “mãe, o pai está a fazer número 2 e estou aqui com ele na casa de banho” e o pai diz para saíres e ires ter com a mamã? É para “ires dar banho ao cão”. Ou então, quando estás a pensar em dizer “não gosto de ti” ou “já não sou teu amigo”, é o momento certo “para ir pentear macacos”. Já mais velho e estás a pensar dizer a alguém que é um “cocó”, que não vale nada, é exactamente o momento para “ires dar uma volta ao bilhar grande”. Ou então quando marcaste uma hora com alguém e ao invés de estares a caminho, estares ainda sentadinho no teu lugar, nada como “desamparar a loja”. Se bebeste um copo a mais e a tua boca debita estupidez atrás de estupidez, já sabes que é hora de “pores-te na alheta” (de táxi, como já te ensinei). Resumindo e concluindo, se sentires que vais ser um little shit (a mãe disse para continuar a ensinar-te inglês) para alguém, sem razão, e deixar essa pessoa a sentir-se mal, é tempo de? “Dar de frosques”!

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227. Toma conta do teu irmão que aí vem

Quando comecei a escrever estes conselhos ainda não eras nascido e sonhava como seria a tua carinha, o teu feitio, o teu interesse por carros. À semelhança do dia que me casei com a tua mãe, a 10 de Março de 2001, dia em que a pedi em namoro (cara-a-cara, não havia whatsapp, snapchat, facetime, só algo muito evoluído chamado SMS e telemóveis monocromáticos), o teu nascimento foi um dos momentos mais felizes da minha vida. Por muitos conselhos que recebas, ninguém te vai conseguir preparar para o dia em que decides viver com alguém até serem velhinhos ou para quando decides ter um rebento. Desconfio que agora vai chegar o terceiro momento mais feliz da minha vida mas tens que te preparar, pois desconfio que vai ser um pouco duro para ti ainda que não tanto como a espada do Jake ou o bastão do Miles. Vem aí o teu mano mais novo e o pai e a mãe precisam que tu tomes alguma conta dele. Nesta fase inicial, será como quando fazemos as gelatinas, o pai pega na água quente e tu misturas o pozinho, sendo que o pai ou a mãe pegam no mano e tu ajudas a meter a fralda ou o creminho. Depois chega o tempo em que tens que mostrar ao mano como papar com a colher e logo a seguir a andar de pé e no triciclo (importas-te que ele aceda à tua garagem privada?). E como aprendeste depressa a deixar a fralda e a chucha, ensinas também estes truques especiais ao mano? Vai ter medo do primeiro dia de escola como tiveste, mas por essa altura já conheces a escola toda e levas-o pela mão. Pela lógica estarás sempre um passo à frente do teu mano e poderás partilhar com ele a tua experiência. Mas aprende também com ele, assim como eu aprendi e reaprendi contigo, como a deixar as centenas de músicas do telemóvel de parte para ouvir um vinil de uma música de cada lado do avô Tino contigo. Lembra-te: a ti e a ele, que a maioria dos problemas de hoje daqui a um ano nem se lembrarão deles. O pai e a mãe como filhos mais novos agradecem aos manos mais velhos pelo que fizeram por nós (e, descansa, que pretendo ser por muitos anos o vosso mano velho, para o bem e sobretudo para o mal, ou o contrário?).

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(O teu mano Etelvino, Jaquim ou será Barnabé? Qual é que preferias mesmo?)

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226. Aposta na regularidade e não na intensidade

A regularidade e a intensidade são como os desenhos animados do Jake e os Piratas na Terra do Nunca. O Jake e a sua equipa são a regularidade, porque entusiasmam-se sempre com as aventuras mas são cautelosos no caminho que levam para a vitória garantida. Já o Capitão Gancho arrasta a sua equipa para semi-vitórias que por momentos são intensas mas que no médio e longo prazo redundam em derrotas. Repara, é preferível seres um colaborador que entrega resultados de qualidade em permanência que entregar apenas resultados espectaculares de vez em quando; seres um namorado que se lembra de todas as datas ao invés de só fazer algo muito especial numa e esqueceres-te de todas as outras; seres um filho que na escola tem média de 4 ao invés de alguns 5 e depois vários 2. Claro está que coisas intensas e curtas também devem fazer parte da tua vida, sendo que vou deixar que aprendas sozinho quais, tirando uma bebedeira de vez em quando (tipo de 10 em 10 anos, não conduzindo nunca, recordando sempre o que se passou no processo e, muito importante, onde é que estás a acordar).

(Mais um clássico que vais ver comigo desse grande colosso de ator chamado Tom Cruise; regularidade vs intensidade!)

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225. Aprende a coser um botão

Saber coser um botão é tão importante como saber cozer um ovo ou mudar um pneu. Podes alegar que hoje em dia já há serviços para fazer tudo isso sem teres que te chatear mas se agora com três anos já sabes fazer gelatina ou ajudar na preparação da base de uma refeição mediterrânica cortando o alhinho (perdão, alho que agora não aceitas que eu diga qualquer coisa com diminutivo), a cebola e o tomate e adicionando o sal e o azeite porque não podes aprender a coser um botão? A tua Vó Gusta ensinou o pai a coser um buraco nas meias e um botão numa camisa ou casaco, “porque os homens também se querem prendados, para arranjar boas mulheres”. Não sei se foi por isso ou se foi para o pai sair mais depressa de casa, mas a realidade é que quando saí, sabia coser um botão, cozer um ovo e mudar um pneu (felizmente para a tua mãe, a Vó Judite sabe fazer duas de três dessas coisas bem melhor do que eu, mas sempre sei mudar pneus melhor do que ela!).

(Começa já a treinar!!!)

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224. Experimenta azedas

As azedas são como aquele queijo mal-cheiroso que o pai te põe a cheirar de vez em quando para nos rirmos os dois: primeiro “estranha-se mas depois entranha-se”. As azedas são umas flores amarelas cujo caule tem um sabor ácido, um pouco como aqueles amigos que são corrosivos na forma de ser mas que aos tirares as primeiras camadas se revelam grandes seres humanos. Nas azedas como nas pessoas, aprende a gostar de cada uma nas suas qualidades e defeitos, mesmo que por vezes esses defeitos sejam difíceis de ultrapassar (muitas vezes são defesas pessoais para problemas de insegurança ou outros; e sim, não sejamos santos, que em alguns casos é mesmo melhor partir para outra, que o ácido pode ser forte de mais para o teu estômago e escapar-te para os punhos).

PS: Hoje estiveste azedo comigo mas eu perdoo-te que há dias ameacei-te mandar os carrinhos para o lixo por não os arrumares e ainda não digeriste a mensagem (sais ao teu pai, assumo, que a tua mãe perdoa rapidamente, thank God!)

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223. Não atalhes caminho

Atalhar caminho é como quando dizes que não precisas de ir à escola porque já sabes tudo do alto dos teus três anos. É habitual atribuir-se a ” chica espertice” aos portugueses e aos povos latinos. Muitas vezes com razão, como já pudeste ouvir com as exclamações do pai na estrada do tipo “olha-me este gaijo a passar traços contínuos à grande para não esperar como aqui o camelo” ou daquelas que a mãe ralha por tu já perceberes e repetires tudo. A realidade é que a “chica espertice” tem perna curta como a mentira. Até pode ser que te safes durante muito tempo mas, seja por via direta, como a polícia, as finanças, a professora ou os papás, ou seja por via do karma, vais pagar sempre. Alerto-te até que muitas vezes vais achar que foste mais esperto que os outros mas é porque intencionalmente te deixaram, por terem aquele problema grave de serem…boas pessoas.

(Uns “chico espertos” que te aconselho até a ver mais episódios)

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222. Não tenhas medo de mudar

A mudança é como a água, muitas vezes custa a engolir mas a maior parte delas, faz-te um bem danado. Podem ser mudanças simples como a que o pai está a fazer agora de abandonar os refrigerantes e uma série de outros alimentos para ter um corpo mais saudável e, assim, ser teu pai durante muitos anos (quiçá ver bisnetos). Ou podem ser mudanças grandes como ires trabalhar para um local a 10 mil km de distância. O importante é não teres medo de mudar algo em ti, na tua vida, na tua relação com os outros, mesmo que durante anos nunca o tenhas feito. Só não mudes a simpatia ou honestidade que te caracterizam já hoje, como ficou patente no diálogo que presenciei com a Vó Didi após o jantar: Vó quero fazer cocó! Vamos, Francisco. (cinco minutos depois estavas a brincar com a tampa da sanita e muito distraído). Francisco estás a brincar ou a fazer cocó? Vóó, estou a fazer cocó e a brincar!

(Muda porque “A Vida é Um Milagre!!!”)