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228. De vez em quando, vai “pentear macacos”

Ires “pentear macacos” ou “dar banho ao cão” é como ires “dar uma volta ao bilhar grande”. Não te preocupes que não tens que tirar nenhum curso de veterinária ou de bilhar para o fazeres. No que consiste então fazer qualquer uma dessas coisas estarás tu a questionar? Basicamente é “desamparar a loja” ou “pôr-te na alheta”. Bom, pode ser ainda “dar de frosques”. Ainda não percebeste? É simples, sabes quando o papá diz baixinho que está a fazer o “número 2” na casa de banho quando temos visitas e tu gritas “mãe, o pai está a fazer número 2 e estou aqui com ele na casa de banho” e o pai diz para saíres e ires ter com a mamã? É para “ires dar banho ao cão”. Ou então, quando estás a pensar em dizer “não gosto de ti” ou “já não sou teu amigo”, é o momento certo “para ir pentear macacos”. Já mais velho e estás a pensar dizer a alguém que é um “cocó”, que não vale nada, é exactamente o momento para “ires dar uma volta ao bilhar grande”. Ou então quando marcaste uma hora com alguém e ao invés de estares a caminho, estares ainda sentadinho no teu lugar, nada como “desamparar a loja”. Se bebeste um copo a mais e a tua boca debita estupidez atrás de estupidez, já sabes que é hora de “pores-te na alheta” (de táxi, como já te ensinei). Resumindo e concluindo, se sentires que vais ser um little shit (a mãe disse para continuar a ensinar-te inglês) para alguém, sem razão, e deixar essa pessoa a sentir-se mal, é tempo de? “Dar de frosques”!

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227. Toma conta do teu irmão que aí vem

Quando comecei a escrever estes conselhos ainda não eras nascido e sonhava como seria a tua carinha, o teu feitio, o teu interesse por carros. À semelhança do dia que me casei com a tua mãe, a 10 de Março de 2001, dia em que a pedi em namoro (cara-a-cara, não havia whatsapp, snapchat, facetime, só algo muito evoluído chamado SMS e telemóveis monocromáticos), o teu nascimento foi um dos momentos mais felizes da minha vida. Por muitos conselhos que recebas, ninguém te vai conseguir preparar para o dia em que decides viver com alguém até serem velhinhos ou para quando decides ter um rebento. Desconfio que agora vai chegar o terceiro momento mais feliz da minha vida mas tens que te preparar, pois desconfio que vai ser um pouco duro para ti ainda que não tanto como a espada do Jake ou o bastão do Miles. Vem aí o teu mano mais novo e o pai e a mãe precisam que tu tomes alguma conta dele. Nesta fase inicial, será como quando fazemos as gelatinas, o pai pega na água quente e tu misturas o pozinho, sendo que o pai ou a mãe pegam no mano e tu ajudas a meter a fralda ou o creminho. Depois chega o tempo em que tens que mostrar ao mano como papar com a colher e logo a seguir a andar de pé e no triciclo (importas-te que ele aceda à tua garagem privada?). E como aprendeste depressa a deixar a fralda e a chucha, ensinas também estes truques especiais ao mano? Vai ter medo do primeiro dia de escola como tiveste, mas por essa altura já conheces a escola toda e levas-o pela mão. Pela lógica estarás sempre um passo à frente do teu mano e poderás partilhar com ele a tua experiência. Mas aprende também com ele, assim como eu aprendi e reaprendi contigo, como a deixar as centenas de músicas do telemóvel de parte para ouvir um vinil de uma música de cada lado do avô Tino contigo. Lembra-te: a ti e a ele, que a maioria dos problemas de hoje daqui a um ano nem se lembrarão deles. O pai e a mãe como filhos mais novos agradecem aos manos mais velhos pelo que fizeram por nós (e, descansa, que pretendo ser por muitos anos o vosso mano velho, para o bem e sobretudo para o mal, ou o contrário?).

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(O teu mano Etelvino, Jaquim ou será Barnabé? Qual é que preferias mesmo?)

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226. Aposta na regularidade e não na intensidade

A regularidade e a intensidade são como os desenhos animados do Jake e os Piratas na Terra do Nunca. O Jake e a sua equipa são a regularidade, porque entusiasmam-se sempre com as aventuras mas são cautelosos no caminho que levam para a vitória garantida. Já o Capitão Gancho arrasta a sua equipa para semi-vitórias que por momentos são intensas mas que no médio e longo prazo redundam em derrotas. Repara, é preferível seres um colaborador que entrega resultados de qualidade em permanência que entregar apenas resultados espectaculares de vez em quando; seres um namorado que se lembra de todas as datas ao invés de só fazer algo muito especial numa e esqueceres-te de todas as outras; seres um filho que na escola tem média de 4 ao invés de alguns 5 e depois vários 2. Claro está que coisas intensas e curtas também devem fazer parte da tua vida, sendo que vou deixar que aprendas sozinho quais, tirando uma bebedeira de vez em quando (tipo de 10 em 10 anos, não conduzindo nunca, recordando sempre o que se passou no processo e, muito importante, onde é que estás a acordar).

(Mais um clássico que vais ver comigo desse grande colosso de ator chamado Tom Cruise; regularidade vs intensidade!)

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225. Aprende a coser um botão

Saber coser um botão é tão importante como saber cozer um ovo ou mudar um pneu. Podes alegar que hoje em dia já há serviços para fazer tudo isso sem teres que te chatear mas se agora com três anos já sabes fazer gelatina ou ajudar na preparação da base de uma refeição mediterrânica cortando o alhinho (perdão, alho que agora não aceitas que eu diga qualquer coisa com diminutivo), a cebola e o tomate e adicionando o sal e o azeite porque não podes aprender a coser um botão? A tua Vó Gusta ensinou o pai a coser um buraco nas meias e um botão numa camisa ou casaco, “porque os homens também se querem prendados, para arranjar boas mulheres”. Não sei se foi por isso ou se foi para o pai sair mais depressa de casa, mas a realidade é que quando saí, sabia coser um botão, cozer um ovo e mudar um pneu (felizmente para a tua mãe, a Vó Judite sabe fazer duas de três dessas coisas bem melhor do que eu, mas sempre sei mudar pneus melhor do que ela!).

(Começa já a treinar!!!)

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224. Experimenta azedas

As azedas são como aquele queijo mal-cheiroso que o pai te põe a cheirar de vez em quando para nos rirmos os dois: primeiro “estranha-se mas depois entranha-se”. As azedas são umas flores amarelas cujo caule tem um sabor ácido, um pouco como aqueles amigos que são corrosivos na forma de ser mas que aos tirares as primeiras camadas se revelam grandes seres humanos. Nas azedas como nas pessoas, aprende a gostar de cada uma nas suas qualidades e defeitos, mesmo que por vezes esses defeitos sejam difíceis de ultrapassar (muitas vezes são defesas pessoais para problemas de insegurança ou outros; e sim, não sejamos santos, que em alguns casos é mesmo melhor partir para outra, que o ácido pode ser forte de mais para o teu estômago e escapar-te para os punhos).

PS: Hoje estiveste azedo comigo mas eu perdoo-te que há dias ameacei-te mandar os carrinhos para o lixo por não os arrumares e ainda não digeriste a mensagem (sais ao teu pai, assumo, que a tua mãe perdoa rapidamente, thank God!)

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223. Não atalhes caminho

Atalhar caminho é como quando dizes que não precisas de ir à escola porque já sabes tudo do alto dos teus três anos. É habitual atribuir-se a ” chica espertice” aos portugueses e aos povos latinos. Muitas vezes com razão, como já pudeste ouvir com as exclamações do pai na estrada do tipo “olha-me este gaijo a passar traços contínuos à grande para não esperar como aqui o camelo” ou daquelas que a mãe ralha por tu já perceberes e repetires tudo. A realidade é que a “chica espertice” tem perna curta como a mentira. Até pode ser que te safes durante muito tempo mas, seja por via direta, como a polícia, as finanças, a professora ou os papás, ou seja por via do karma, vais pagar sempre. Alerto-te até que muitas vezes vais achar que foste mais esperto que os outros mas é porque intencionalmente te deixaram, por terem aquele problema grave de serem…boas pessoas.

(Uns “chico espertos” que te aconselho até a ver mais episódios)

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222. Não tenhas medo de mudar

A mudança é como a água, muitas vezes custa a engolir mas a maior parte delas, faz-te um bem danado. Podem ser mudanças simples como a que o pai está a fazer agora de abandonar os refrigerantes e uma série de outros alimentos para ter um corpo mais saudável e, assim, ser teu pai durante muitos anos (quiçá ver bisnetos). Ou podem ser mudanças grandes como ires trabalhar para um local a 10 mil km de distância. O importante é não teres medo de mudar algo em ti, na tua vida, na tua relação com os outros, mesmo que durante anos nunca o tenhas feito. Só não mudes a simpatia ou honestidade que te caracterizam já hoje, como ficou patente no diálogo que presenciei com a Vó Didi após o jantar: Vó quero fazer cocó! Vamos, Francisco. (cinco minutos depois estavas a brincar com a tampa da sanita e muito distraído). Francisco estás a brincar ou a fazer cocó? Vóó, estou a fazer cocó e a brincar!

(Muda porque “A Vida é Um Milagre!!!”)

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221. Conhece o mundo mas casa com uma portuguesa

* No tempo em que os homens portugueses tinham bigode e barriga, as mulheres portuguesas eram como as sardinhas – pequenas e “gostosinhas”. Hoje são tubarões e a prova é que os homens portugueses já não podem ter nem bigode nem barriga, sob pena de irem cano abaixo tal qual peixinho morto. A minha memória mais remota é a minha Avó Emília que nos últimos 90 e alguns anos de vida continuava a meter em sentido os 42 descendentes directos, e alguns já avôs também. Segue-se a minha mãe e tua “vó Gusta”, que com pouco mais de metro e meio de gente, conseguiu educar quatro homens bem mais altos que ela (eu, os teus dois tios e o teu avô Tino, que, segundo ela, não sabia se vestir quando a conheceu), em tempos bem piores que os actuais. No entretanto, entrou na minha vida a minha segunda mãe, para ti “Vó Didi”, resistente que nem o aço inoxidável e com quem ninguém faz farinha e aquela que é a grande mulher da minha vida, a senhora minha mulher e tua mãe (aka “Mãmã Lena”). E digo senhora minha mulher não por ter medo que me meta as malas à porta mas porque reúne a essência da mulher portuguesa da actualidade – cada vez mais gira e bem vestida, inteligente, ambiciosa, bem formada, muito determinada e cada vez menos complacente com atitudes machistas. Por isso, o mundo para conhecer e uma portuguesa para casar!

(Mas há dúvidas?)

*Se reparaste o papá não escreveu ontem este conselho e foi até recuperar parte de um texto que escreveu há uns anos para completar o mesmo mas é porque ando a trabalhar muito para ter tostões para poderes comprar os bolinhos na senhora da praça e a gelatina que fazemos os dois ao fim-de-semana

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219. Nunca uses uma música que adoras para toques de telemóvel “responsáveis”

Usares músicas que adoras para toques de telemóvel “responsáveis” como o de despertar, de quando a tua namorada te liga, de um amigo ou qualquer outro elemento na tua vida que seja muito importante é um erro crasso. Imagina só que chegaste a casa de uma noitada às 6h30 em que viste a tua namorada numa conversa muito quente com o teu melhor amigo e tens que acordar às 7h para ir trabalhar. Às 7h toca a tua música favorita de despertador no telemóvel e tu com 30 minutos de sono e uma valente ressaca. Ao mesmo tempo começa o toque ininterrupto especialmente escolhido para a namorada que tanto amavas e que te quer dizer que “não foi nada do que imaginaste, foi só o calor do momento”. O mesmo toque só é interrompido pela música potente que escolheste para toque do teu melhor amigo, que só quer dizer que afinal está é apaixonado por ti e foi um erro ter estado envolvido com ela ontem. Meia hora depois, é o toque especial do pai (que eu coloquei no teu telemóvel para te lembrares que sou eu; provavelmente o mesmo que uso hoje) só para te dizer que a cena de ontem foi toda encenada por nós os três para ver se te deixas de noitadas e dás o próximo passo na tua relação. Poderia inventar muitos cenários (até porque estou sob o efeito de duas injecções e um antibiótico potente por uma garganta inflamada, yauuuu) mas fica-te só com a raiva que vais ganhar a música de despertador.

(O toque “diferente” de telemóvel que andei dois anos para encontrar por honrar a tua terra de criação e que a tua mãe gostou tanto que até fugia de mim quando o telefone tocava; agora tenho este por adorar uma série de coisas deste filme como de outros western spaghetti que vais ver comigo daqui a uns anitos)

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218. Escolhe bem o teu cabeleireiro

O cabeleireiro e o mecânico são duas das escolhas mais importantes a fazer na vida porque mexem com dois dos teus bens mais preciosos, o cabelo e o carro. Recordo-me quando era pequeno que ao cabeleireiro só iam as mulheres; os homens iam ao barbeiro. O meu primeiro barbeiro era o Sr. Manuel, comunista de gema que criava canários e que tinha a barbearia na cave por debaixo do tasco do Zé Manuel da Vacaria. A minha mãe e tua avó Gusta mandava-me lá ir sozinho e pedir o corte “curto mas não careca” (na altura moicano, à CR7 e essas modernices de escolha não existiam). Recordo-me do Sr. Manuel a fazer espuma da barba para os homens e de me meter sempre umas gotas de Lavanda da Ach Brito depois de cortar o cabelo, o que me fazia sentir sempre o miúdo mais homem lá da rua. Seguiu-se o cabeleireiro António, colega de escola do tio Pedro, que eu adorava lá ir para falar de vinho e de outras coisas mas que apesar do corte ser um complexo “tudo máquina 3, ou no Verão, tudo 1,5”, me deixava sempre com pontas soltas e a avó danada comigo por ter que me acertar o cabelo depois. Já a morar na terra da mamã, a mais memorável foi a “Sargento 35”, que apesar de me cortar o cabelo algumas 50X e de o corte ser o mesmo, me perguntou sempre qual era o corte e conseguiu em todas as vezes nunca sorrir e vincar que era um favor o que me estava a fazer (nem a gorjeta no final das 50X a fez render-se). Só o teu avô Tino conseguiu fazê-la sorrir (mas esse era um homem especial). Hoje o pai corta num daqueles sitios em que nunca tens um cabeleireiro fixo, pelo que tem de explicar sempre até à exaustão o complexo corte de 2,5 de lado e tesoura em cima (“e a patilha?”, “2,5 com 1 no inicio que tem muito volume de lado mas menos atrás?”, “e a sobrancelha. alinhada?”, …). É por isso que tal como nos carros, nada como o primeiro, o Sr. Manuel ou o meu Opel Corsa 1.0 de 4 mudanças, que não faziam perguntas e agradavam-me sempre.

(Em homenagem ao Sr. Manuel, deixo-te com a Lavanda da Ach Brito que ainda hoje podes comprar)