200. Não escolhas RP como profissão

Os relações públicas são como os trapezistas, a linha que os separa de bestiais a bestas é sempre muito ténue. São uma das profissões mais stressantes dos últimos anos e que toda a gente diz que consegue fazer, que não são necessários grandes conhecimentos, que são muitas vezes um centro de custos, que não geram vendas, que…mais um chorrilho de coisas em que ser associado ao tipo que está à porta da discoteca e conhece meio-mundo ou o tipo que serve croquetes na festa até parece ser do mais positivo da profissão. A apostar em carreira é em funções prescritivas, isto é, funções em que o que dizes é lei e é aceitável que tenhas um ordenado acima da média porque é preciso “realmente estudar”. Profissões como médico, controlador aéreo, advogado, financeiro, nas quais o discurso hermético e a “utilidade” existe mesmo e são especialistas por áreas.

 
Depois destas linhas todas deves estar a questionar porque raio então escolheste tu, pai ser RP? Primeiro porque percebi muito cedo que adequar a mensagem aos diferentes públicos salva muito gente de problemas. Na escola evitei apanhar porrada e ser roubado, eu e outros miúdos igualmente pequenos e timídos, ao tornar-me amigo dos bullies; ao tentar perceber a sua perspetiva de fazer um corredor para nos dar pontapés e calduços à saída do pavilhão ou querer “aliviar-nos” do almoço ou do dinheiro da carteira. Depois, todos os dias tens desafios diferentes, tanto pode ser uma crise como lançar um novo produto, como ter que comunicar algo a uma equipa inteira, contribuir para criar uma marca de raiz, entre tantos outros. Desafios em que tens por vezes segundos para tomar decisões críticas à la piloto de fórmula 1, em que uma palavra mal dita pode ter consequências muito negativas. No entanto, se no piloto és a estrela, nas RP, as estrelas devem ser os outros. E isso também é algo que adoro no trabalho que faço, de fazer brilhar pessoas e ideias que de outra forma não seriam conhecidas. Mais, regra geral tens sempre budgets reduzidos ou “no budgets” mas tens que fazer acontecer e no mais curto espaço de tempo, imagina a adrenalina que não é! Tens que provar constantemente que vale a pena investir no teu trabalho, que é um trabalho que também é, atenção 1, especializado, que também requer, atenção 2, formação, que também necessita, atenção 3, talento. Conheces seres humanos fantásticos, que estão sempre disponíveis para fazer mais e melhor, mesmo recebendo pouco. Permite-te perceber o máximo da profissão dos outros e procurar com ela interagir da melhor forma, por mais hermética que seja. Permite-te colocar no papel dos outros para perceber a sua perspetivas das coisas por mais “twisted” que elas sejam. Não faz do teu pai a pessoa mais rica de dinheiro mas rica de relações, rica de felicidade no que faz e sobretudo rica por poder contar histórias diferentes todos os dias que ficariam por contar muitas vezes. 
 
PS: 14 anos depois a tua avó “Guta” continua sem saber muito bem o que é que o filho dela, senhor teu pai faz, mas amo-a e agradeço-lhe tanto mais por isso, porque me ajudou vezes sem conta com o “efeito da minha mãe”, isto é, a perceber que se o que a marca A ou B lhe diz ela não entende, a maior das pessoas não entenderá também. Mais, foi o espírito falador e de enorme coração em ajudar os outros que contribuiu grandemente para eu escolher ser RP (isso e poder vir a ser o tipo à porta da discoteca que decidia quem entrava na mesma e todas as miúdas giras o queriam conhecer).
 

(A diferença que um trabalho “menor” pode fazer)

Deixe um comentário